O que torna o BBB um sucesso atemporal?
A nova edição do Big Brother Brasil, o BBB 26, já promete agitar a programação com a dinâmica inédita das Casas de Vidro espalhadas pelo país. Enquanto o público aguarda ansiosamente a estreia, a pergunta que ecoa ano após ano é: o que explica o fascínio duradouro pelo formato e o desejo das pessoas de se exporem a esse nível?
Para a psicóloga Leticia de Oliveira, o reality show transcende o entretenimento superficial, funcionando como um verdadeiro laboratório humano a céu aberto. Segundo ela, a longevidade do programa está diretamente ligada à exposição crua da natureza humana, revelando comportamentos sem filtros.
“O Big Brother, até hoje, tem tantas edições e tanta audiência. Por que as pessoas não se cansam? Porque o Big Brother não é apenas uma fofoca, não é um simples programa de entretenimento. Ele é a psicologia em sua forma mais pura. São pessoas completamente despidas de todos os mecanismos que as protegem”, explica a especialista.
O prazer ancestral de julgar
A audiência do BBB é, em grande parte, movida por um instinto ancestral. A psicóloga aponta que assistir ao programa ativa uma área do cérebro ligada à curiosidade primitiva, semelhante à de nossos antepassados. Além disso, o ato de julgar o outro a partir de uma posição segura oferece um certo conforto.
“As pessoas de fora julgam, e isso é algo prazeroso: ver o outro de uma forma mais instintiva. Esse julgamento se ativa quando estamos em um estado vulnerável, enquanto nos sentimos protegidos”, analisa Leticia. Ela compara esse comportamento ao que ocorre nas redes sociais, onde críticas a figuras públicas são comuns, e também à forma como reagimos a pessoas expostas na TV, vivendo suas vidas sem barreiras.
Confinamento: O cérebro em modo de sobrevivência
Para os participantes, o confinamento é uma experiência intensa, desencadeando reações fisiológicas e emocionais significativas. O isolamento leva a um aumento do cortisol, o hormônio do estresse, e a um estado de hipervigilância.
“O confinamento desorganiza o cérebro, que acaba entrando em um estado de sobrevivência, com aumento de cortisol, hipervigilância e emoções mais intensas”, detalha a especialista. “Falando de saúde mental, o que acontece quando uma pessoa entra em confinamento? Ela perde a noção do tempo e se perde da própria identidade, já que a identidade está muito associada ao contexto e às relações.”
Essa desorganização mental se manifesta em reações exageradas, como aumento da ansiedade, irritabilidade, angústia, estado de alerta, dissociação, crises de choro e apego excessivo, fenômenos frequentemente observados no programa.
Medo da exclusão supera o prêmio milionário
Um aspecto intrigante levantado pela psicóloga é que, dentro da casa, o medo instintivo de ser excluído do grupo muitas vezes se sobrepõe ao desejo pelo prêmio milionário.
“Os vínculos se tornam muito fortes porque, por instinto de sobrevivência, a pessoa quer se vincular para não se sentir sozinha. Não é sobre um milhão de reais, é sobre o instinto de sobrevivência, sobre não ser eliminado”, afirma Leticia. Ela complementa: “Não ser eliminado se torna muito mais importante, pois ativa o sistema de sobrevivência mais do que, efetivamente, a recompensa financeira. Tudo isso gera uma desregulação emocional gigantesca.”
O BBB como espelho da vida real
Por fim, o sucesso contínuo do BBB reside na capacidade de identificação do público. O reality, de forma concentrada, reflete as dinâmicas sociais que vivenciamos em nosso cotidiano, seja no ambiente de trabalho, com amigos ou em família.
“Outro ponto muito importante é a conexão que fazemos com a vida real. As alianças, as fofocas, as intrigas, as provas de resistência e o desempenho fazem parte da nossa vida cotidiana, no trabalho, com amigos e com a família. Assim, nos espelhamos, nos identificamos e nos projetamos naquelas cenas, e conseguimos nos sentir, de alguma maneira, melhor, porque estamos menos vulneráveis”, conclui a psicóloga.
